• Lidice Meyer

Uma reformadora fora da Reforma


Teresa d’Avila viveu no século XVI em pleno desenvolvimento da Reforma Protestante. Apesar disto provavelmente não teve qualquer contato com os textos de Martinho Lutero ou outros reformadores. Sendo uma freira na Espanha, país blindado contra a influência do protestantismo, as notícias que lhe chegavam eram sempre negativas. Apesar disto, Teresa, assim como Lutero, percebia a degradação moral do clero, o distanciamento cada vez maior da Igreja Cristã de seus propósitos originais e a necessidade urgente de uma reforma religiosa. Numa clara reação contra o luxo e a pompa da corte papal, Teresa instigou sua ordem religiosa a buscar uma vida de oração e humildade. Percebeu que para reformar as estruturas externas da Igreja era necessário começar por uma reforma interior.

Num mundo onde a mulher era tida como incapaz até mesmo de orar por si mesma e a oração mental era vista como uma prática perigosa se realizada sem orientação, Teresa incentivou suas companheiras à prática da oração interior resgatando nelas seu valor próprio. Em um de seus escritos lemos: “Tampouco, tu, Senhor, quando andaste pelo mundo, desprezaste as mulheres; pelo contrário, tu sempre, com grande compaixão, as ajudaste. E encontraste mais amor e fé nelas do que encontraste nos homens”. A partir da oração Deus cria uma relação de amizade com o fiel que o transforma por dentro e o religa ao outro. Para Teresa as contendas e divisões internas da igreja só poderiam ser combatidas pela amizade e pela graça divina frutos de uma vida de oração. Ao enfatizar que “até mesmo entre as panelas está o Senhor”, Teresa d’Avila reforça não só o valor da fé feminina em igualdade à fé dos homens, mas também ressalta que a vida cristã não se faz em reclusão e isolamento, mas no envolvimento social e nos afazeres diários. Uma fé interior vivida no exterior. Trazer Deus não só dentro de cada um, mas mostra-lo através das nossas palavras e ações.

Estamos vivendo um período com muitas semelhanças ao século XVI, quando vemos a igreja cada vez mais dividida seja por questões políticas, religiosas, culturais e de ordem econômica. O mundo cristão tornou-se muitas vezes uma arena onde crentes e líderes digladiam através das redes sociais. Ao mesmo tempo enfrentamos um pessimismo que nos leva muitas vezes a desacreditar na humanidade e em tempos melhores. A tentação é ceder ao desânimo, mas não podemos nos conformar com esta situação. O Deus que criou o mundo e fez a humanidade à sua imagem e semelhança deixou em cada um de nós a força e a criatividade para buscar novos caminhos. Não temos mais um Martinho Lutero e nem Teresa d’Avila para impulsionar uma nova reforma, mas Deus continua a contar com homens e mulheres verdadeiramente comprometidos com o Seu Reino na Terra para realizar a Sua obra. Ao enfrentar a resistência às mudanças em seu tempo, Teresa animou suas companheiras afirmando que Deus lhes daria a coragem necessária e que se “uma ou duas (...) fizerem, sem medo, o que é melhor”, o mundo se transformaria. Resta nos espelharmos na coragem dos reformadores do passado e buscarmos em oração e ação pelas mudanças. Oração, ação e justiça são inseparáveis no Reino de Deus. Um bom começo é internalizar a oração de outro reformador, Francisco de Assis, musicalizada pelo grupo evangélico Vencedores por Cristo: “A começar em mim, quebra corações para que sejamos todos um, como Tu és em nós. Onde há frieza que haja amor, onde há ódio, perdão, para que Teu corpo cresça assim, rumo à perfeição.”


Lidice Meyer Pinto Ribeiro Doutora em Antropologia, Professora na Universidade Lusófona em Lisboa, Portugal

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