MATERNIDADE(S) segundo a imagem de Deus
- Lidice Meyer

- 9 de mai.
- 3 min de leitura

O que faz uma mulher ser completa? Segundo a sabedoria popular, oriunda de uma frase do poeta cubano José Martí, para ser feliz e completa, uma pessoa precisaria conseguir realizar ao menos estas três atividades: "Ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro".
Parece-me que esta mesma tríplice tarefa tem sido vista por algumas cristãs como requisito essencial para uma mulher sentir-se completa e realizada, principalmente a primeira: ter um filho. Crescemos estudando sobre mulheres da Bíblia que sofreram pela infertilidade como as matriarcas Sara, Rebeca e Raquel, para não falar de Ana e da mãe de Sansão. Nas entrelinhas das suas histórias aprendíamos que estas mulheres só foram abençoadas por Deus quando geraram seus filhos biológicos.
Curiosamente, a lista de mulheres da Bíblia das quais não se diz se foram mães e até mesmo se foram casadas é muito maior que a de mulheres que geraram filhos. Podemos, só para citar algumas, lembrar de Miriã, Débora, Ester, Madalena, Dorcas e Lídia. Todas elas, assim como outras semelhantes não geraram filhos, mas foram mulheres realizadas, completas e abençoadas por Deus.
O que, portanto, torna uma mulher completa e realizada é viver dentro dos propósitos de Deus, exercendo o papel para o qual fomos criadas à sua imagem e semelhança (Gn 1.27). Fomos criadas de forma única e especial e trazemos em nós a imagem de Deus que é também mãe. Pode parecer estranho pensar em Deus também como mãe, mas é o que a Escritura nos mostra: Deus concebe filhos (Jr 31.20; Jó 38.28-29); Deus dá à luz a filhos (Is 42.14; Dt 32.18); Deus amamenta/alimenta seus filhos (Is 49.15); Deus ensina/educa seus filhos (Os 11.1-4); Deus cuida de seus filhos (Is 46.3-4, 66.13) e, Deus guia/orienta seus filhos (Dt 32.11-12). Enfim, nosso Deus é pai, mas também possui características de mãe.
Resgatar a imagem maternal de Deus em cada uma de nós é perceber que fomos criadas para gerar, nutrir, cuidar e guiar vidas, não necessariamente nascidas de nosso ventre, mas principalmente nascidas do Espírito de Deus.
Mais do que a obrigação de realizar cada um dos itens, a frase do início do texto trata de deixar um legado que permaneça para além de nós. Todas as mulheres que citei acima deixaram uma marca eterna preservado na Bíblia, mas quero destacar em especial o legado de Débora. Ela diz: “Eu, Débora, me levantei, levantei-me por mãe em Israel” (Jz 5.7) Débora não gerou filhos biológicos, mas se fez mãe espiritual de todo um povo. Debora conhecia as Escrituras, citando-a (Jz 5.5 / Ex 19.18); era profetisa e, portanto, tinha intimidade com Deus (Jz 4.4), orientou quem buscou por seus conselhos (Jz 4.5); protegeu seu povo contra um exército, como uma leoa protege seus filhos (Jz 4.6-9) e, cuidou de seus filhos espirituais dando-lhes um período de 40 anos de paz (Jz 5.32).
Ser mãe biológica é um papel valorizado na Bíblia mas, mais ainda é valorizada a maternidade espiritual, seja de nossos filhos biológicos como de tantos outros que Deus colocar sob nossos cuidados. Mais do que gerar filhos biológicos, Deus espera de nós que geremos filhos e filhas espirituais, nutrindo-os com a Escritura, protegendo-os do mundo e guiando-os nos caminhos do Senhor.
Lidice Meyer
Doutora em Antropologia, professora na Universidade Lusófona em Lisboa, autora do livro “Cristianismo no Feminino” (editora Mundo Cristão)




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