• Lidice Meyer

Assédio Sexual na Igreja


O assédio sexual é mais comum do que parece. O machismo considera “normal” certos tipos de tratamentos e atitudes dados às mulheres que se constituem de abuso. Toques indevidos, olhares impróprios, referências sexuais ocultas sob o pretexto de “brincadeiras” são algumas das atitudes que são naturalizadas para alguns homens e até para algumas mulheres. Quando o assédio ocorre por parte de um líder eclesiástico somam-se ainda os abusos de poder e psicológico. Quando o abuso ocorre dentro de uma igreja ou vindo de alguém que também faz parte dessa igreja, a primeira pessoa que normalmente é procurada para uma denúncia é o pastor. Mas infelizmente muitos pastores são mal preparados para lidar com esta realidade ou até mesmo compactuam com a mesma. Há casos de pastores que julgam como normal certos avanços por parte de jovens ou homens, tratando-os como parte da masculinidade e do flerte. O uso de frases que reforçam estereótipos negativos como: “homens tem mais desejos sexuais e precisam ser satisfeitos” ou “você é que está sendo muito imatura. Isso é totalmente normal entre um homem e uma mulher” são frequentes. Mas isso é uma mentira atroz que acaba por perpetuar uma relação doentia escamoteada pela sacralidade da igreja.

As crianças e adolescentes também não são imunes ao pecado de alguns líderes. Toques indevidos, com abraços apertados demais, carícias ou afagos que causam desconforto devem ser um sinal de alerta. Uma criança ou adolescente deve ter em seus pais a principal fonte de amparo e a liberdade de expor suas sensações negativas quando existirem. Se não encontrarem em suas casas o refúgio e a orientação necessária, uma experiência desagradável de assédio sexual na igreja pode levar a um progressivo afastamento da comunidade e até mesmo de Deus.

A razão do abuso sexual ser tão comum entre líderes de uma igreja é pela posição de autoridade institucional, espiritual e religiosa que possuem. Por trás de uma imagem de homens ungidos e escolhidos por Deus, alguns agem como se fossem intocáveis. A mulher que corajosamente se expõe ao denunciar tal atitude é frequentemente tratada pela igreja como causadora do “deslize”, sedutora ou provocante, uma verdadeira “filha de Eva” no seu conceito mais negativo. Desqualificadas, as mulheres que denunciam sofrem duas violências - a física e, depois, a estigmatização na comunidade. Em nome da preservação de uma falsa moralidade, abusos são ocultados e traumas vão se sobrepondo marcando para sempre a vida das vítimas.

A própria Bíblia é utilizada para justificar a culpa lançada sobre a mulher com estudos distorcidos sobre Eva, Bateseba, Tamar, Diná, a mulher adúltera dos evangelhos, dentre outras. Sem a segurança para denunciar seja aos pais, seja a alguém da igreja, meninos, meninas e mulheres vítimas de assédio sexual se calam e sofrem sozinhos pela culpa indevida internalizada pelo falso doutrinamento. A igreja que deve ser local de refúgio torna-se local de tortura psicológica e moral.

Mas não precisa ser assim! Pais e igreja como um todo devem estar sensíveis às situações de perigo e abertos a ouvir e não discriminar. A igreja precisa estar preparada para acolher as vítimas de assédio como um local de refúgio e tratamento. Para favorecer isto é necessário criar uma estrutura de escuta e apoio preferencialmente com mulheres. De modo geral, a igreja tem dificuldade em abordar sobre o tema, mas este deve ser estudado em suas mais diversas formas, na escola dominical e nas reuniões desde o departamento infantil ao de adultos. Ao criar estratégias que busquem a valorização tanto dos homens como das mulheres em todas as atividades da igreja, buscando inculcar desde os mais novos o respeito mútuo, estaremos resgatando a imagem da igreja no propósito original de Deus para a humanidade.

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