• Lidice Meyer

As Marias Madalenas da Reforma Protestante


As mulheres protestantes do século XVII não se restringiram a atuação no lar, cuidando dos filhos e proporcionando o apoio necessário aos esposos. O conhecimento das histórias das mulheres da Bíblia, em especial do papel de Maria Madalena como primeira testemunha da ressurreição de Jesus e sua vocação como discípula e apóstola enviada por Cristo, as impulsionou a seguir seus passos na vida pública.

Maria Madalena era a prova do sacerdócio universal dos cristãos exposto em Gálatas 3.28 para Lutero e vários dos reformadores. No sermão do domingo de Páscoa em 1530 Lutero afirmou: “Cristo faz dela uma pregadora, para que ela seja companheira e mestra dos queridos apóstolos.” Na Quinta-Feira Santa do mesmo ano pregou sobre o texto de João 20, contrapondo a dedicação e fé de Madalena aos discípulos homens que amedrontados esconderam-se após a morte de Jesus.: "Maria Madalena é uma bela imagem e um exemplo notável de todos aqueles que apegam-se a Cristo para que seu coração seja inflamado com amor puro e genuíno por Cristo… E o evangelista registrou tão cuidadosamente tudo isso para apresentar seu exemplo ao mundo inteiro, para que nós, que o pregamos ou o ouvimos, também tenhamos tal desejo, amor e ardor pelo Senhor Cristo, de acordo com o exemplo dela... Este exemplo de Maria envergonha-nos a todos.”

E assim, “com os corações inflamados com amor puro e genuíno por Cristo”, as mulheres reformadas do século XVI seguiram os passos de Maria Madalena e tomando-a como exemplo divulgaram a mensagem do Evangelho através de todos os meios que conheciam: escreveram cartas, folhetos, livros, poemas, hinos e ainda pregaram em público.

Maria Dentière no tratado dirigido à rainha Margarida de Navarra em 1539, defendeu o direito igualitário das mulheres para pregar o Evangelho: “Que mulher foi maior pregadora do que a mulher samaritana, que não se envergonhou de pregar Jesus e sua palavra?... Quem pode se gabar de ter tido a primeira manifestação do grande mistério da ressurreição de Jesus, senão Maria Madalena, de quem ele expulsou sete demônios, e as outras mulheres, a quem, mais do que aos homens, ele revelou-se anteriormente por meio de seu anjo e ordenou-lhes que o contassem, pregassem e o declarassem aos outros?”

Da mesma forma, Katharina Schütz Zell viu em Maria Madalena a justificativa para seu testemunho público quando dirigiu a palavra no sermão fúnebre de seu esposo Matheus Zell em 1548. Argula von Grumbach que publicou folhetins e cartas defendendo Lutero, baseou sua posição perante os teólogos da Universidade de Ingolstadt de 1523, assemelhando-se à Maria Madalena e à Samaritana. A Rainha Elizabeth I viu-se como responsável por levar a mensagem do Evangelho aos outros, no papel de líder da Igreja Anglicana, tendo sido representada como Maria Madalena sendo comissionada por Cristo na capa de uma tradução feita por ela mesma de um dos livros de Margarida de Navarra. E mesmo a mártir protestante, Anne Askew, torturada e executada em 1546 na Inglaterra por manter visões teológicas protestantes sobre a Ceia do Senhor foi comparada Maria Madalena pelo apoio financeiro à igreja, desafio da tirania eclesiástica e proclamação do Evangelho.

Estas mulheres são apenas algumas dentre as tantas outras “Marias Madalenas da Reforma”, que não se intimidaram perante a perseguição, não se esconderam em suas casas e vidas domésticas, mas saíram pelas madrugadas de um novo tempo, “com os corações inflamados com amor puro e genuíno por Cristo” e deixaram sua marca na história da Igreja reformada.


Lidice Meyer Pinto Ribeiro Doutora em Antropologia, Docente na Universidade Lusófona, em Portugal.


Fonte: Arnold, Margaret. The Magdalene in the Reformation. Cambridge, Massachusetts : The Belknap Press of Harvard University Press, 2018.

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