• Lidice Meyer

Maria Madalena, uma história a ser resgatada


Recentemente, em 2016, o Papa Francisco elevou Maria Madalena a condição de Apóstola dos Apóstolos mantendo o dia 22 de julho a ela dedicado. Muito já se escreveu sobre esta enigmática mulher. Artistas a pintaram ora como devota e recatada, ora como sensual e despudorada. Apesar de ser a mulher mais citada nos Evangelhos, aparecendo 14 vezes, pouco se sabe desta que foi a primeira testemunha da ressurreição de Jesus.

Lucas é quem nos introduz Maria Madalena no capítulo 8.2-3. Deste texto podemos perceber que ela havia padecido de um mal e sido curada por Jesus; era uma mulher com posses financeiras; possuía liberdade de ir e vir bem como de dispor de seus bens como assim desejasse e, acompanhou Jesus desde o início de seu ministério. No século I não havia entendimento completo sobre as doenças físicas e mentais. Muitas doenças eram relacionadas a questões espirituais pelo desconhecimento e pelo espanto que geravam. Como o número sete é representativo na cultura judaica de “totalidade” é provável que sua associação à doença de Maria Madalena fosse uma forma de demonstrar a severidade deste mal.

Quando lemos os demais textos em que Maria Madalena é citada descobrimos mais um importante dado. Sempre que é citada junto a outras mulheres, seu nome aparece em primeiro lugar. Isto é uma indicação clara do seu papel de liderança perante as mulheres que acompanhavam Jesus e os discípulos. Enquanto dentre os homens é sempre dado destaque a Pedro, dentre as mulheres esse destaque é dado a Maria Madalena.

A próxima menção a Maria Madalena acontece na crucificação de Jesus. Três evangelistas que a colocam nesta cena terrível (Mt 27.55-56; Mc 15.40-41; Jo 19.25). O único nome citado por todos é o de Maria Madalena enfatizando sua importância. Devido a sua proximidade com o Mestre, Maria Madalena pôde acompanhar a retirada de seu corpo da cruz e seu sepultamento (Mt 27.61; Mc 15.47). O único fato relacionado a Maria Madalena que é atestado pelos quatro evangelistas é a sua presença na ressurreição de Jesus, tamanha é a importância de seu testemunho (Mt 28.1-9; Mc 16.1-9; Lc 24.10; Jo 20.1-18). Foi a partir do testemunho de Maria Madalena que o cristianismo veio a se estabelecer.

Mas se é isto que a Bíblia relata sobre Maria Madalena, por que muitos a veem como uma prostituta arrependida? Como explicar esta relação já que na Bíblia não há nada que indique que Maria Madalena tenha sido uma prostituta? Esta percepção errônea surge da confusão entre quatro mulheres dos Evangelhos: Maria Madalena, Maria de Betânia, a mulher pecadora que unge os pés de Jesus na casa de Simão e a mulher adúltera que Jesus evita de ser morta por apedrejamento. A confusão entre estas quatro mulheres foi sedimentada por um sermão do Papa Gregório Magno (séc. VI) e acabou por se tornar uma certeza inquestionável no senso comum. A partir de então foram muitas as produções artísticas que retrataram Maria Madalena ressaltando a sensualidade. Uma mulher que de testemunha da ressurreição de Cristo passa a ser lembrada como uma prova da decadência e da queda da humanidade atribuída ao pecado de outra mulher: Eva.

Mas nem sempre foi assim. Hipólito de Roma (séc. III), Rábano Mauro (séc. IX), Tomás de Aquino (séc. IX) e Martinho Lutero (séc. XVI), todos consideravam Maria Madalena como uma verdadeira apóstola, enviada por Jesus para levar uma grande mensagem aos demais discípulos. Hoje, 21 séculos depois, a Igreja evangélica precisa também, a semelhança dos católicos, rever sua percepção e resgatar a importância de Maria Madalena para o cristianismo.


Lidice Meyer


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