Nossa Senhora da Conceição: a padroeira que une Portugal e Brasil


Enquanto aqui em Portugal o dia 12 de outubro marca a última aparição de Nossa Senhora aos pastorinhos em 1917, celebrada com a procissão das velas, no Brasil celebra-se o dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira desse país. Mas muitos portugueses e mesmo brasileiros desconhecem o fato que o nome completo de sua padroeira é Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Sim, é verdade. A imagem venerada na cidade de Aparecida, estado de São Paulo, Brasil é na verdade uma representação de Nossa Senhora da Conceição esculpida no século 17 em terracota. Mas como esta imagem e esta devoção chegaram ao outro lado do Atlântico?
A devoção à Imaculada Conceição é bem antiga com registros de festas desde o século VIII. O dia 8 de dezembro já lhe era dedicado desde o século 13 e a data entrou para o calendário litúrgico em 1476 com o Papa Xisto IV. Pouco depois seria criada a Ordem da Imaculada Conceição pela jovem portuguesa nascida no Alentejo Beatriz Menezes da Silva. Conta-se que Beatriz teria sido encarcerada por ciúmes em um pequeno baú, mas em uma aparição Nossa Senhora ter-lhe-ia prometido salvar-lhe a vida se esta fundasse uma ordem religiosa que celebrasse o mistério da Imaculada Conceição. Após ser liberta do baú, Beatriz se uniu a algumas monjas em um mosteiro em Toledo Espanha. Lá, com o auxílio da Rainha Isabel criou a Ordem das irmãs Concecionistas voltadas para a veneração e difusão do privilégio mariano da Imaculada Conceição de Maria, cujas integrantes trajam-se de azul e branco (cores de Nossa Senhora da Conceição). A bula Inter Universa, que autorizou a constituição das Concecionistas, foi expedida pelo Papa Inocêncio VIII em 1489.
Em Portugal, a devoção a Nossa Senhora da Conceição está profundamente interligada à história e identidade do país. Registra-se que em 1147 Afonso Henriques celebrou uma Missa em honra da Imaculada Conceição em virtude da conquista de Lisboa antes sob o domínio mouro. A devoção popular a esta vocação de Nossa Senhora cresceu e se espalhou por todo o país até que, em 25 de março de 1646, D. João IV proclamou a Senhora da Conceição, venerada em Vila Viçosa como Rainha e Padroeira de Portugal e de todos os seus territórios ultramarinos. Em 8 de maio de 1671, o papa Clemente X confirmou Nossa Senhora da Conceição como padroeira de Portugal. Ainda em 1818, D. João VI criou a Real Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição, atrelando ainda mais as conquistas militares à esta devoção.
Curiosamente, o dogma mariano que institui a concepção virginal de Maria só foi promulgado em 8 de dezembro de 1854 pelo papa Pio IX. Diz a bula papal: “Pela inspiração do Espírito Santo Paráclito, para honra da santa e indivisa Trindade, para glória e adorno da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da fé católica e para a propagação da religião católica, com a autoridade de Jesus Cristo, Senhor nosso, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e nossa, declaramos, promulgamos e definimos que a Bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de sua conceição, foi preservada de toda mancha de pecado original, por singular graça e privilégio do Deus Onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador dos homens, e que esta doutrina está contida na Revelação Divina, devendo, portanto, ser crida firme e para sempre por todos os fiéis” (Ineffabilis Dei, 42).
Já tendo se espalhado por todo Portugal, quando as primeiras caravelas aportaram na nova terra descoberta no século 16, a devoção a Nossa Senhora da Conceição chegou ao Brasil levada pelas mãos de marinheiros e de colonos portugueses. E assim, apenas 23 anos após a chegada das caravelas de Pedro Álvares Cabral à Bahia, já surgia a primeira igreja em 1523 dedicada a esta devoção mariana na Ilha de Itamaracá, Pernambuco. Em 1586 foi fundado no Rio de Janeiro o Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição por dois monges vindos da Bahia. Há diversos registros de que devotos tenham mandado vir de Portugal retábulos e imagens de Nossa Senhora da Conceição para suas capelas de devoção particular em diversas partes do país recém-colonizado. As representações tradicionais de Senhora da Conceição trazem as mãos unidas em oração, tendo sob os pés nuvens com anjos e uma lua crescente. Nossa Senhora traja uma túnica azul com a parte interna em vermelho. Com as imagens em igrejas e capelas particulares a devoção foi crescendo e hoje já existem cerca de 30 dioceses no Brasil que a tomam por padroeira e cerca de 533 paróquias dedicadas à Nossa Senhora da Conceição.
Mas não foram apenas imagens importadas de Portugal que se difundiram pelo Brasil. Alguns artistas brasileiros como o frei beneditino Agostinho de Jesus criaram diversas imagens de santos, santas e Nossa Senhora em terracota no século 17. A arte de frei Agostinho de Jesus influenciou santeiros de diversas partes do Brasil, incluindo artistas da região do Vale do Paraíba em São Paulo.
Assim, conta-se que em 1717 que três pescadores lançaram as redes no rio Paraíba do Sul, e, após diversas tentativas infrutíferas, “pescaram” o corpo sem cabeça de uma pequena estátua em barro cozido (terracota). Jogando novamente a rede trouxeram para o barco uma cabeça em barro. Perceberam então que as duas peças se uniam formando uma imagem de Nossa Senhora com 36 cm de altura. Conta-se que depois deste “aparecimento” jogaram a rede diversas vezes apanhando sempre peixe em abundância.
Após a pesca miraculosa, a imagem foi levada por um dos pescadores que a colocou em um oratório doméstico. Sabendo do milagre, não tardou a vizinhança a vir ver e rezar perante a imagem “aparecida” no rio. Começaram a surgir relatos de graças alcançadas após os pedidos feitos perante a pequenina imagem de barro e logo a casa do pescador ficou pequena para a quantidade de pessoas que vinham ver a imagem de Nossa Senhora. O pároco da região logo se percebeu que a imagem era uma Nossa Senhora da Conceição embora devido ao tempo que esteve submersa já teria perdido as cores típicas da imagem e não possuir sob os pés a lua crescente e nem os anjos. A imagem recebeu então a alcunha de Nossa Senhora da Conceição Aparecida em virtude de ter miraculosamente aparecido no Rio Paraíba do Sul.
Por volta de 1734 o Vigário da cidade construiu uma capela aberta à visitação pública. A constante exposição da pequenina imagem à fuligem de lamparinas e velas acesas pelos devotos no pequeno espaço acabou por escurecer o barro, tornando a imagem quase negra como hoje se apresenta.
O número de visitantes e fiéis não parou de crescer tendo a capela sido visitada até mesmo pelo então Príncipe Regente do Brasil, Dom Pedro I (D. Pedro IV em Portugal) em 20 de abril de 1822. Decidiu-se então construir uma capela maior em 1834 que foi solenemente inaugurada em 1888 (hoje conhecida como Basílica Menor). A devoção crescente à pequenina imagem não passou desapercebida da corte real brasileira e consta que a princesa Isabel, filha de D. Pedro II visitou a Basílica para reverenciar a imagem em duas ocasiões: em 1868 e em 1888, quando presenteou à santa uma coroa de ouro cravejada de diamantes e rubis e um manto azul aveludado.
Em 8 de setembro de 1904, já após a Proclamação da República, a Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi coroada, solenemente, por D. José Camargo Barros em nome do Papa Pio X, por decreto da Santa Sé, com a coroa e o manto ofertados pela princesa com a presença de muitos bispos e do então presidente do Brasil, Rodrigues Alves.
Alguns anos depois, em 16 de julho de 1930, à semelhança do que acontecera em Portugal 283 antes, o Papa Pio XI proclamou Nossa Senhora da Conceição Aparecida como rainha do Brasil e padroeira do país. Ao Santuário de Aparecida, o papa concedeu: ofício e missa própria de Nossa Senhora Aparecida e indulgências para os romeiros que vão em peregrinação ao Santuário.
Com a continuação do aumento do número de fiéis nas peregrinações à primeira Basílica teve que ser substituída por uma maior, que começou a ser construída em 11 de novembro de 1955. O papa João Paulo II, em sua visita apostólica ao Brasil em 1980, foi ao local e consagrou solenemente a nova Basílica declarando 12 de outubro como o dia da Festa Litúrgica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
A imagem de Nossa Senhora Aparecida ficou grandemente associada ao brasileiro, seja pela forma miraculosa de sua aparição, seja pelo tom escurecido de sua pele que a aproxima dos tantos mestiços e mulatos que formam a população maior do país. Mais do que uma figura de devoção a imagem de Nossa Senhora Aparecida se tornou um símbolo cultural brasileiro. Sua imagem é ostentada em t-shirts, tatuagens, adesivos em carros, joias e objetos decorativos. Sua história é contada em peças teatrais, novelas e filmes. Seu nome aparece em poemas e músicas dos mais diversos estilos. A devoção a Nossa Senhora da Conceição Aparecida transcendeu as barreiras do religioso para se tornar um símbolo de identidade nacional.
De figura venerada no catolicismo popular brasileiro ela penetrou os ambientes das religiosidades afrobrasileiras e da umbanda tornando-se um elemento de diálogo inter-religioso e sincretismo. A devoção a Nossa Senhora da Conceição Aparecida une pessoas de fé diversa, mas numa mesma esperança de conforto maternal. Não se podia esperar que fosse diferente pois Nossa Senhora da Conceição já chegara ao Brasil no século 16 unindo dois povos separados por um oceano em uma mesma fé devocional sob o mesmo manto azul e vermelho. Nossa Senhora Aparecida é o fio condutor da fé católica oriunda de Portugal que germinou e cresceu no solo brasileiro, tornando o Brasil a maior nação católica do mundo.
Lidice Meyer Pinto Ribeiro
Doutora em Antropologia, Professora na Universidade Lusófona.



Comentários