• Lidice Meyer

Fé em tempos de COVID


Chama-me a atenção o contraste de algumas mensagens que circulam nas redes sociais. Ao mesmo tempo em que recebo mensagens de esperança como “Vai ficar tudo bem”, outras alertam para a passagem do cavalo amarelo do Apocalipse trazendo a morte, indicando o começo do fim dos tempos (Ap 6.8). O mais interessante é que as mensagens de fé e esperança vem indiscriminadamente de seguidores de religiões diversas e até mesmo de ditos ateus. Em muitos casos é uma fé difusa, sem um direcionamento muito preciso. Mas apesar disto ela está presente em todos os seres humanos, desde a mais tenra idade.

A canção “Alagados” do grupo Paralamas do Sucesso traz a seguinte afirmação que caracteriza bem este estado da humanidade: “A arte de viver da fé, só não se sabe fé em quê.” Também podemos ver esta mesma noção da presença difusa da fé na letra de Gilberto Gil para a música “Andar com fé”: “Mesmo a quem não tem fé, a fé costuma acompanhar”. Não sei se os artistas tiveram noção da grandeza de suas afirmações, mas a verdade é que a arte, a poesia e a música apontam para a existência do transcendente em nós. Deus se revela também pela sua criatura.

Somos seres movidos pela esperança e guiados pela fé. A criança de peito espera pelo cuidado de sua mãe e acredita firmemente que será atendida (Sl 131.2). Crescemos sempre à espera de dias melhores e acreditando que eles virão. Pela sua presença em todos os seres humanos, estes três elementos: fé, esperança e amor (1 Co 13.13), foram chamados pelos pais da Igreja de virtudes teologais por fundamentarem o agir moral.

Como antropóloga só posso ver nisso mais uma prova da “marca” de Deus na humanidade. A fé é uma característica do ser humano. Tempos de crise destacam ainda mais esta faceta da humanidade. Mesmo com as igrejas fechadas são muitos aqueles que, desigrejados há tempos, tem buscado abrigo e alento nas mensagens virtuais. São muitas as iniciativas de solidariedade e a busca por amenizar o sofrimento do próximo, mostrando que a “fé atua pelo amor” (Gal 5.6).

O Covid não nos tirou a capacidade de sonhar com dias melhores. Ele apenas nos mostrou nossa fragilidade humana frente a um vírus microscópico. Apesar do COVID, continuamos a ter esperança de que tudo isso vai passar. Esse é o dom da fé; herança divina da criação. Foi o que deu força ao povo de Israel para suportar a escravidão no Egito e na Babilônia. Foi o que preservou o cristianismo apesar da perseguição do Império Romano. Foi o que deu força a humanidade para se reerguer após grandes guerras e tantas epidemias como esta que vivemos hoje.

O invés de ver o COVID como maldição ou princípio do fim, podemos encará-lo como uma oportunidade para fortalecer nossa fé em Deus e em Cristo. É tempo de trazer a memória o que nos pode dar esperança (Lm 3.21-24). É tempo de recordar um dos mais belos hinos da Harpa Cristã: “Porque Ele vive, posso crer no amanhã; porque Ele vive, temor não há; Mas eu bem sei, eu sei, que a minha vida está nas mãos de meu Jesus, que vivo está.”

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