• Lidice Meyer

8 de MARÇO - DIREITO DE SER MULHER

Atualizado: Mar 9


Nos primórdios da humanidade a relação entre homem e mulher cercava-se de admiração e medo. A mulher se mostrava dotada de poderes específicos: a menstruação, a sexualidade e os mistérios da gestação. Cada grupo social reagia de forma particular, mas seu valor era sempre percebido e respeitado. Passados alguns milênios, a situação mudou: o que era motivo de admiração tornou-se em vergonha e subordinação. E embora alguns acusem a Bíblia de ter contribuído grandemente para a desvalorização da mulher na sociedade ocidental, o que se observa é a presença das mulheres nos momentos mais decisivos: na criação do mundo, na formação do povo escolhido, na sua preservação, conquista da terra prometida, no período dos juízes, no estabelecimento do Reino de Israel, na sua divisão, no período do exílio, na genealogia de Jesus, no seu ministério, na sua morte e ressureição e na formação da igreja.

A visão popular de que a mulher no período bíblico era tratada como inferior é incorreta. As matriarcas, esposas dos patriarcas eram mulheres ouvidas, respeitadas e admiradas. As mulheres participavam ativamente das celebrações religiosas, sociais e dos atos políticos. Atuavam no plano econômico e tinham voz, tanto no campo privado como no público. As mulheres estavam presentes nas festas judaicas, juntamente com os homens e crianças (Dt 12.12) e nos sacrifícios (Dt 12.18). Faziam parte da aliança do povo com Deus (Dt 29.10-13) e deviam assim como os homens, conhecer e respeitar a lei de Deus (Dt 31.12). Temos o registro da participação de mulheres na reconstrução da muralha de Jerusalém (Ne 3.12), executando um papel tradicionalmente masculino. Interessante notar que Neemias não traça nenhum comentário ao fato, o que indica não ser algo incomum, tanto que em 1 Crônicas 7.24, temos o registro de que Cheerá, filha de Efraim, teria construído três cidades.

O fato de que não há referência ou destaque a questão de gênero quando uma mulher exerce um papel de liderança na Bíblia é um sinal de que esta liderança era corriqueira e não despertava estranheza a ninguém. O único cargo em que as mulheres estavam firmemente excluídas era o de sacerdote, cargo cujas altas exigências excluíam a maioria dos homens (Lv 21). Por outro lado, as mulheres dos sacerdotes e suas filhas podiam participar da refeição sacerdotal (Lv 22.10-13) e o serviço feminino à porta do tabernáculo é registrado em Êxodo 38.8.

A importância dada por Deus às mulheres pode ser vista pelo fato deste se dirigir diretamente às mulheres, como: Hagar (Gn 21.17), duas vezes a mãe de Sansão (Jz 13.3, 9) e Maria. A Bíblia também registra que as mulheres sentiam-se à vontade para buscar a presença e orientação de Deus como fez a mulher de Jeroboão (1 Reis 14.1-16), a Sunamita (2 Reis 4.22-30), Rebeca (Gn 25.22-23), Raquel (Gn 30.6) e Ana (1 Sm 1.10-17; 2.1-10).

A mudança gradual na relação entre os gêneros foi posterior e se deve muito à influência do patriarcalismo romano. Entre os romanos, os homens ditavam as regras de conduta esperada das mulheres e os limites de seu envolvimento social. As mulheres ocupavam posição socialmente subordinada, politicamente nula e economicamente relativa. A partir do século I, o judaísmo rabínico começa a produzir a coletânea de textos sagrados referentes à lei, ética, costumes e história do povo judeu: o Talmud. Como o povo judeu vivia sob o domínio romano, muito da cultura greco-romana foi inserida nestas regras como a concepção do lugar da mulher na sociedade. A mulher passa a praticamente não ter mais vida social, ficando afastada dos acontecimentos e lugares públicos e religiosos.

Jesus revelou grande coragem quando ignorou as barreiras sociais existentes e exerceu um ministério vital e pessoal junto às mulheres. Tendo sido criado no judaísmo sabia as regras sociais impostas às mulheres, mas, apesar disso Jesus desafia a sociedade de sua época com atitudes muitas vezes escandalosas (algumas até para a nossa sociedade atual) mas que para ele eram naturais, frutos de seu amor e compaixão pela humanidade como um todo.

Hoje as mulheres retomam seu espaço nas empresas, na política, nas atividades sociais e culturais. De forma geral, o século 21 chegou com mais aceitação pelas escolhas femininas. Cada vez mais as mulheres alcançam a independência financeira e política, expressam seus gostos e defendem seus pontos de vista, retornando à essência da criação. Apesar disso, ainda há espaços a serem conquistados, principalmente no que se refere às questões salariais e a violência doméstica. Uma luta que perpassa hoje pela questão crucial: o direito de ser respeitada e valorizada por ser simplesmente mulher. “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus. ” (Gl 3.28)


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